segunda-feira, 30 de março de 2026

 

Oh mundo cristalino,
Que de ferocidade em ferocidade
Te vais tornando viperino,
Como se a noite na cidade
Te envolvesse na modernidade
Dos olhares incautos e assustados
Dos cândidos seres a que a mocidade
Destina para os fatais fados!

Nada é relevante se a fortuna se afastar
Se a bravata te fugir ou a isso intentar,
Lembra-te dos mestres estoicos
E dos seus preceitos,
A virtude é preferível ao prazer!
E por isso é imperativo a aceitação
Daquilo que o destino te oferecer.
É, pois, muito forte quem se guia pela razão!

Carece assim de justificação
Quem ao mundo oferece a sua visão,
Quem ao seu olhar oferece a razão
De abdicar na vida do cérebro pelo coração.

domingo, 29 de março de 2026

 

Nesta imensidão do cosmos que
Tem o seu término nesta vasta terra em
Que habitamos, somos apenas a fagulha,
Somos apenas o resíduo da matéria
Que percorre milhas e iões para aqui se alocar.

Sempiterno é o que essa fagulha esconde,
A origem ou a fonte donde ela provém
Cujo espaço nos é desconhecido.
Mas se escutarmos o som dos ventos onde
As palavras do criador se sussurram para quem as quiser ouvir,
Encontramos nelas as respostas que nos fazem sentido.

Não, ilustre companheiro que nos dias chuvosos
Sofres da angústia dilacerante que aos incautos acomete,
Não olhes apenas para o visível e risível
Que o mundo te oferece,
Não evites o olhar do cosmos e da criação
Que está sempre presente nos sussurros dos teus sonhos
Ou na imensidão das noites mais negras e da sua escuridão,
Ouve o bater do teu coração e olha o céu que sobre ti se desaba,
Percorre os caminhos inóspitos da tua alma para te descobrires,
Para te libertares das amarras tortuosas que ela te lançou
Pelo esquecimento que o nascimento te causou.

Oh meu querido, meu mais precioso companheiro
A morte é tão natural quanto a vida
Mas de nada vale apressá-la,
Não te prendas aos sentimentos de angústia
Ou a tristezas dilacerantes que aos sete ventos
Reclamam as dores do passado.
Não te esqueças do presente e do seu contraste
Com a efemeridade do que já foi,
O seu valor reside no que é e na sua permutabilidade,
É para ser vivido na sua plenitude.

quinta-feira, 26 de março de 2026

 

Um novo dia amanhece
E com ele as oportunidades da vida,
Não importa o que acontece,
Nem o grito da angústia da alma ferida,
Pois quando um novo dia floresce,
É o hoje e a sua maravilha
Que a esperança promete.

É o fogo das almas perdidas
E o gelo dos corpos inertes
Que ao mundo atiram poemas
De amor e afectos efémeros,
É a inevitabilidade da solidão
Em que inunda o coração.
É um mundo cruel envolto na escuridão.

É a luz da candura que no negro erradia
Ofuscada pela obscuridade das falsas promessas,
É a angústia que oculta a luz do dia
E a desilusão da alma iludida,
É o olhar profundo pela vida perdida
Ou o mundo impiedoso que a todos rodeia.
É a fugacidade da luz numa candeia,
É a morte que sorrateira nos espreita
Na cama onde o Homem se deita.

quarta-feira, 25 de março de 2026

 

Será meu amigo, que na noite mais escura
Em que a lua te abraça e te conforta
Te olha no fundo da alma e te sussurra baixinho:
És tu meu anjo, meu pequeno anjinho
És tu que olhas à noite o meu brilho misterioso
E me contas os teus segredos envoltos nas lágrimas
De quem não sabe lidar com a implacabilidade
Deste mundo tão atroz quanto belo,
Tão cruel quanto bondoso?

Será meu amigo, será que escutas o grito lancinante
Do profeta renascido que te chama e reclama,
Será que lembras o momento em que a veemência
Do coração te atacou e te lançou
Nas trevas da eterna tempestade que colhe os frutos semeados?

Ou será que não te lembras do lume que irrompeu
Nas tuas entranhas e alcançou a tua mente
Para que olhasses onde no teu corpo te encontravas
E quem no fundo de ti residia?

Pois eu lembro-me meu amigo, eu lembro-me
Bem do dia que te olhei, que segui os sussurros
Da lua mais brilhante e mais redonda que os meus olhos alcançaram
E te observei nesse fundo de mim tão fundo que nem o luar te alcançava.
Eu lembro-me de te (re)ver e te (re)conhecer, de te agarrar e te voltar a sentir,
Pois foi nesse dia que (re)nasci, foi nesse dia meu amigo que eu e tu
Passamos a ser eu, que a luz me inundou e a escuridão me abandonou…
Eu lembro-me de mim!

segunda-feira, 23 de março de 2026

 

Era noite, daquelas noites gélidas em que o brilho do luar 
Nos ilumina a eterna mansidão do olhar, 
Daquelas noites melancólicas em que a candura 
De uma criança nos alcança com a ternura, 
Era noite e todos os sonhos do homem 
Se esfumavam pela frincha de uma janela. 

Ah meu irmão, quantas noites como essa 
Me abalaram o coração, 
Quantos olhares perdidos nessa vastidão 
De um luar imersivo se ofuscaram na imensidão 
Desse cosmos misterioso que emerge nos olhos 
Irrequietos e vorazes do ser! Ah meu irmão, 
Quantos olhares amorfos se resgataram nessas noites 
Fantasmagóricas e místicas em que o coração reclama 
Por uma lágrima que exorte todo o êxtase contido! 

Foi a tua memória meu irmão, foi a tua memória que
Me agarrou a essas noites sacras que afundavam
A consciência de um homem na eterna busca de um sentido,
Foi a tua memória que me lançou no eterno e vasto
Manancial de descobertas interiores.

Era noite sim, era uma noite tão obscura
Quanto os misticismos mais negros,
Era uma noite tão interminável que toda
A névoa glacial que nos alcançava se diluía
Na nossa melancolia espectral. Era noite sim,
E foi nessas noites tão cristalinas quanto a obscuridade
O pode ser, que a visão de um novo ser se formou,
Foi nessas noites em que a ressurreição se deu
Que o olhar interior encontrou o novo homem,
Foi nessas noites que a compreensão da imensidão
Do cosmos penetrou na infinitude do meu ser.

Oh meu irmão, o que as saudades me falam
O amor mo traduz, o que a dor me tirou
A paz me retribuiu. Até um dia meu irmão!

domingo, 22 de março de 2026

 

Oh cantor bandoleiro, filho de pais presos
Numa era de atrocidades gratuitas,
Cantor ingénuo que julgou um dia ter vivido
Numa era de igualdade e liberdade,
Filho da utopia e da falsa promessa democrática,
Cantor que tarde abriu os olhos para o mundo que o rodeia.

Oh cândido ser que um dia acreditou na bondade alheia,
Cerra os teus punhos e faz-te à vida, sorri mas cerra os dentes
E perscruta tudo à tua volta. Não tenhas medo, mas desconfia,
Corre atrás da vida porque o tempo escasseia, não te esqueças
Do azul do céu e do verde da natureza, eles são a beleza do mundo,
Dá valor a cada inspiração tua, lembra a dádiva que é a vida!

Oh cantor inaudito, chora um pranto eterno de saudade,
Canta a melancolia enraizada em cada poro do teu corpo,
Ama a tua impotência tanto quanto o seu oposto, a resistência
Só perdura aquilo a que se resiste, sente a energia do teu corpo.

Oh cantor misantropo, não te esqueças de cantar todo o teu pesar,
De amar as tuas feridas tanto quanto as tuas alegrias,
De cantar os sonhos que te embalam nas noites frias e solitárias,
De olhar o próximo com a compaixão necessária. Não te esqueças cantor…

sábado, 21 de março de 2026

 

Porque carregas contigo esse olhar de angústia,
Esse olhar de melancolia vaga e alienada
Que se perdeu no tempo e no espaço?
Onde te deixaste envolver por essa névoa sem sentido,
Que permeia a solidão e o desapego
Mas que se afunda no vácuo da ociosidade e da letargia?
Em que tempo te encontras-te para revolveres o teu universo interior
Numa luta constante de significados procurados e respostas ansiadas?
Qual o espaço que anseias sem nunca encontrar um rumo que te prenda ou
Que te ofereça uma luz ou um guia para a sua descoberta, em que
Canto deste cosmos te perdeste e lá deixaste essa tua essência que
Não desvendas nem conheces e que te faz vaguear neste mundo sem
Sentido nem orientação?

Fecha os olhos companheiro, fecha os olhos…
É no silêncio da escuridão e na negrura da ausência do som
Que o mundo se te revela, que o teu mundo se te revela,
É na quietude do teu ser e na interiorização dos teus sentidos que
As respostas te aparecem… fecha os olhos companheiro,
Respira fundo e devagar, olha para dentro de ti!

Segura em ti meu menino, segura em ti esse brilho
Que carregas contigo nesta vida, que
Abraçaste à nascença e te ilumina o teu ser,
Esse brilho inamovível que apenas se ofusca nas horas
De angústia e de dor, que se irradia nas de prazer e de amor,
Esse teu brilho que nada o pode extinguir, segura esse teu
Brilho meu irmão, meu amigo.

Aligeira essa dor que trazes contigo, esse trauma
Que herdaste dos teus ancestrais, essa forma de olhar
A vida com ressentimento e resignação, aligeira esse fardo
Que outrora abraças-te, que julgas tão indispensável e tão
Inerente ao teu ser.
Não, meu irmão, a vida não tem de ser necessariamente
Um fardo que carregas sentenciosamente, abre-te para ela,
Olha-a com amor, com meiguice, com gratidão,
Não te deixes envolver pela amargura ou pela depressão,
Não te deixes olvidar da beleza do amor, da vida!

sexta-feira, 20 de março de 2026

 

Ó liberdade, onde andas tu?
Quantas horas desperdiçaste ao luar, olhando as estrelas
Tão brilhantes e simbólicas que da efemeridade luzidia
Nos alcança a suave brisa do cosmos?
Em quantas estradas te perdeste, procurando o azul do mar
Espelhado nos olhos de uma criança que da fertilidade
Terrena nos abraça?

Ó liberdade, preciosa liberdade,
Tão erroneamente confundida com libertinagem, tão
Agreste no seu sentido dispersivo, corroída até às entranhas
Carcomidas pelo véu do esquecimento!

Ó liberdade, tu que permeias
O mais audaz dos audazes, tu que devias ser causa inerente a todo o ser,
Tu que inundas o coração humano com a tua doçura e a tua frescura,
Onde te perdeste? Em que rumo te dirigiste para comutar nas falácias e nas
Falsidades deste mundo, nas ilusões mitológicas e democráticas, nos enganos
Dos falsos messias e dos falsos filósofos? Onde ficaste quando o homem conheceu
O poder?

Ó liberdade, em que raça ou credo te fincaste, como se a ti te fosse exclusiva
Uma raça ou um credo, como se a ti te fosse exclusiva uma cor ou um género, ó melíflua
Liberdade, quem te individualizou quando na tua natureza reside o colectivo?
Em que mundo te encontras tu, ó liberdade?

Ó justiça, onde andas tu?
Quem alguma vez te viu e te prendeu?
Em que mente tão utópica te quedaste, ó justiça?
Em que sonhos te fincaste? Em que vidas te perdeste?

Ó justiça, em que névoas te dissipaste e em que palavras te esfumaste?
Porque carregas contigo esse peso da impossibilidade, esse
Peso da parcialidade? Porque te agarras ao poder e rejeitas a miséria sem
Confraternizar com a isenção, com a neutralidade? Que caminhos tão tortuosos
Trilhaste para te banhares em águas tão inglórias e tão soberbas?
Que olhares odiosos enfrentaste para nunca abraçares a piedade e a seriedade?

Ó justiça utópica, tão efémera quanto a democracia que te enalteceu,
Onde te corrompeste? Onde te deixaste bajular e oprimir? Onde te deixaste
Iludir e aliciar pela malicia e pelo poder? Em que reinos te quedaste, ó justiça?

quinta-feira, 19 de março de 2026


Suave como a noite, assim
Como a multidão deste sítio onde me encontro
Que carrega consigo tanta desilusão,
Tanto adorno em torno de si, como ontem
Ou hoje ou amanhã, o mundo sempre acordará
Na esteira de um holocausto
Enquanto as mentes humanas se perpetuarem
Nesse marasmo de ideias e de sapiência que
Vagueia nesse cosmos sem nunca se infiltrar nalgumas consciências,
Conduzidas por frequências energéticas do colectivo, que
É espelhado pelas inúmeras consciências individuais…
Oh, é tão irascível reparar na apatia e na cegueira humana,
Na constante adaptação do Ser à banalização do mal
Que o homem carrega consigo… é tão repugnante assistir
Ao caos que as sombras do homem produzem!

Não, o mundo não espera por ninguém, ele
Se reproduz, se metamorfoseia, evolui, atravessa gerações cíclicas
E perpetua no tempo a sua assinatura, carrega o
Cataclismo consigo para escorraçar o mal quando dele se fartar,
Quando o amor tiver de ser imperativo,
Quando a intolerância reinar e um cancro originar…
Sim, o mundo sabe o que faz, ele observa
E espera pelo momento de o afugentar,
Ao caos e às trevas do obscuro, do lado negro da alma humana
Que escurece e mancha a beleza do mundo.

Somos produtos do passado
Com os olhos no futuro
Resignados com o presente, enganados
E iludidos pela efemeridade do futuro e
Pela danação do presente como dado adquirido,
Como natureza humana, a falácia das falácias,
A natureza humana é aquilo que o humano quiser que seja,
É aquilo que ele fizer dela, como o tem feito há milénios.
É preciso abrir o coração e a mente,
Olhar o mundo com outros olhos, não com esperança
Mas sim com determinação, com bravura e arrojo
Na ânsia de mudar o mundo, de se mudar a si mesmo para
Mudar o mundo. É preciso amor ao invés de ódio, perceber que a paz
Apenas se conquista pela paz, não com a guerra, não com a força,
Não com violência.
Ozu sabia bem que a tranquilidade é a essência da alma humana…