quarta-feira, 29 de abril de 2026

 

Subia e pensava
que os teus olhos
quentes como brasa aos molhos
me invadiam a alma...

Sim, esses teus olhos inebriantes
que o teu rosto lança
são portais que se desdobram
e no meu interior soçobram.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

 

Juro, 
solenemente,
só mesmo por apenas jurar,
sem sequer perceber o que daí vai resultar,
ou mesmo sem entender o que é o jurar
e se tudo isso irá perdurar.
Mas juro,
continuo a jurar,
sabendo ou não o que irei falar,
ou argumentar,
que a lei da palavra é irrevogável,
assim como a da alma é impenetrável.
Por isso juro,
e voltarei a jurar,
juro sob todos os axiomas,
sob todas as coisas envoltas em redomas,
sob todas as palavras proferidas
dissipadas ou esquecidas.
E olho,
com olhar desconfiado
mas compenetrado,
as rosas que florescem no mato
e as silvas que as acompanham nesse rumo inato.

Caminho,
às vezes apenas por caminhar,
sem rumo,
sem horizonte onde fixar
o olhar,
sem céu nem terra a que possa chamar
meu lugar!
Caminho sim,
sem nunca alcançar,
sem nunca vislumbrar,
com este cândido olhar
um sítio onde me quedar,
sem nunca chegar a preencher
nem conseguir poder
criar um lugar de lazer
onde o meu coração permanecer.
E, portanto, caminho
incessantemente,
num rumo permanente
onde a vontade é presente
e o cansaço ausente,
onde o amor nunca mente
e o ser é carente.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 

Pelo caminho tortuoso que outrora palmilhei
E pelas dores gloriosas que desde aí ultrapassei,
É imperativo gritar e lançar aos ventos as marcas tatuadas
Que os tempos vaticinaram às hordas ancoradas!

É cedo e cedo sinto ser o desembarque ritualístico
Que trago incrustado debaixo da minha pele,
E nem por nada deste mundo já de si meio artístico
Imaginei que um dia a dor se banhasse no mel.

Mas o mundo que chora ainda hoje lágrimas de sangue,
O mesmo mundo que olha o homem com a compaixão de um pai,
É, pois, a casa deste que tão pouca atenção lhe vota;
E as noites e o seu negro que as feridas do mundo lambe
São detalhes invisíveis à pequenez do ser que vai
Olhar apenas ao ego e ao desejo que a sua intelectualidade denota.

segunda-feira, 30 de março de 2026

 

Oh mundo cristalino,
Que de ferocidade em ferocidade
Te vais tornando viperino,
Como se a noite na cidade
Te envolvesse na modernidade
Dos olhares incautos e assustados
Dos cândidos seres a que a mocidade
Destina para os fatais fados!

Nada é relevante se a fortuna se afastar
Se a bravata te fugir ou a isso intentar,
Lembra-te dos mestres estoicos
E dos seus preceitos,
A virtude é preferível ao prazer!
E por isso é imperativo a aceitação
Daquilo que o destino te oferecer.
É, pois, muito forte quem se guia pela razão!

Carece assim de justificação
Quem ao mundo oferece a sua visão,
Quem ao seu olhar oferece a razão
De abdicar na vida do cérebro pelo coração.

domingo, 29 de março de 2026

 

Nesta imensidão do cosmos que
Tem o seu término nesta vasta terra em
Que habitamos, somos apenas a fagulha,
Somos apenas o resíduo da matéria
Que percorre milhas e iões para aqui se alocar.

Sempiterno é o que essa fagulha esconde,
A origem ou a fonte donde ela provém
Cujo espaço nos é desconhecido.
Mas se escutarmos o som dos ventos onde
As palavras do criador se sussurram para quem as quiser ouvir,
Encontramos nelas as respostas que nos fazem sentido.

Não, ilustre companheiro que nos dias chuvosos
Sofres da angústia dilacerante que aos incautos acomete,
Não olhes apenas para o visível e risível
Que o mundo te oferece,
Não evites o olhar do cosmos e da criação
Que está sempre presente nos sussurros dos teus sonhos
Ou na imensidão das noites mais negras e da sua escuridão,
Ouve o bater do teu coração e olha o céu que sobre ti se desaba,
Percorre os caminhos inóspitos da tua alma para te descobrires,
Para te libertares das amarras tortuosas que ela te lançou
Pelo esquecimento que o nascimento te causou.

Oh meu querido, meu mais precioso companheiro
A morte é tão natural quanto a vida
Mas de nada vale apressá-la,
Não te prendas aos sentimentos de angústia
Ou a tristezas dilacerantes que aos sete ventos
Reclamam as dores do passado.
Não te esqueças do presente e do seu contraste
Com a efemeridade do que já foi,
O seu valor reside no que é e na sua permutabilidade,
É para ser vivido na sua plenitude.

quinta-feira, 26 de março de 2026

 

Um novo dia amanhece
E com ele as oportunidades da vida,
Não importa o que acontece,
Nem o grito da angústia da alma ferida,
Pois quando um novo dia floresce,
É o hoje e a sua maravilha
Que a esperança promete.

É o fogo das almas perdidas
E o gelo dos corpos inertes
Que ao mundo atiram poemas
De amor e afectos efémeros,
É a inevitabilidade da solidão
Em que inunda o coração.
É um mundo cruel envolto na escuridão.

É a luz da candura que no negro erradia
Ofuscada pela obscuridade das falsas promessas,
É a angústia que oculta a luz do dia
E a desilusão da alma iludida,
É o olhar profundo pela vida perdida
Ou o mundo impiedoso que a todos rodeia.
É a fugacidade da luz numa candeia,
É a morte que sorrateira nos espreita
Na cama onde o Homem se deita.

quarta-feira, 25 de março de 2026

 

Será meu amigo, que na noite mais escura
Em que a lua te abraça e te conforta
Te olha no fundo da alma e te sussurra baixinho:
És tu meu anjo, meu pequeno anjinho
És tu que olhas à noite o meu brilho misterioso
E me contas os teus segredos envoltos nas lágrimas
De quem não sabe lidar com a implacabilidade
Deste mundo tão atroz quanto belo,
Tão cruel quanto bondoso?

Será meu amigo, será que escutas o grito lancinante
Do profeta renascido que te chama e reclama,
Será que lembras o momento em que a veemência
Do coração te atacou e te lançou
Nas trevas da eterna tempestade que colhe os frutos semeados?

Ou será que não te lembras do lume que irrompeu
Nas tuas entranhas e alcançou a tua mente
Para que olhasses onde no teu corpo te encontravas
E quem no fundo de ti residia?

Pois eu lembro-me meu amigo, eu lembro-me
Bem do dia que te olhei, que segui os sussurros
Da lua mais brilhante e mais redonda que os meus olhos alcançaram
E te observei nesse fundo de mim tão fundo que nem o luar te alcançava.
Eu lembro-me de te (re)ver e te (re)conhecer, de te agarrar e te voltar a sentir,
Pois foi nesse dia que (re)nasci, foi nesse dia meu amigo que eu e tu
Passamos a ser eu, que a luz me inundou e a escuridão me abandonou…
Eu lembro-me de mim!